YLSAO APRESENTA 7 de dezembro tem DEXTER na fabrica de cultura

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sexta-feira, 20 de maio de 2011

revista soma faz materia no periferia ativa


“Já tentamos emplacar coisas em Leis de Incentivo, PAC, VAI (programa da prefeitura de São Paulo). Mas vai e volta (risos). Quando os investidores sabem que o projeto é dentro de uma favela, desistem.” Wilson Lopes diz isso com a serenidade de quem já aprendeu a se esquivar das cabeçadas da vida e um sorriso quase condescendente, de alguém mais preocupado com seu trabalho do que em incorporar revoltas típicas de certa classe média. Wilson talvez seja mais conhecido como MC Ylsão, que, ao lado do MC Tó (ou Antônio Lopes, seu irmão), do MC Arnaldo e do DJ Alê (Alexandre Rocha), compõem o grupo de rap Negredo.

Nascido na Favela do Godoy, no Capão Redondo, o Negredo esteve sempre fadado a ser mais do que um grupo de rap. A história de engajamento comunitário começou a se desenrolar no começo do ano 2000. “Muita coisa aconteceu aqui quando falaram que o mundo ia acabar (risos)”, conta Wilson. Naquele ano, a casa onde hoje é a sede do Periferia Ativa ainda era usada por traficantes para esconder drogas. “O [Mano] Brown tinha vontade de fazer uma rádio comunitária, a Vida Loka. Aí surgiu a ideia de usar este espaço. Foi uma coisa em comum acordo com os próprios caras [do tráfico].” O espaço foi desocupado, mas a ideia da rádio não vingou. No lugar, começaram a organizar uma biblioteca, com discos e livros doados por Brown e Ferréz. No ano seguinte, o Negredo promoveu a primeira festa 100% Favela, realizada na rua em frente à Godoy. Além de trazer shows de vários grupos de rap de São Paulo, o evento tinha um espírito inédito de mobilização. “Na época, como ainda não existia o Periferia, cobramos um quilo de alimento na entrada e doamos tudo à Igreja N. Sª dos Passos”, conta Tó. Com o tempo, a festa cresceu e se tornou uma forma de financiar as atividades do projeto.

Em 2002, o Periferia Ativa começou a tomar corpo. “O Brown começou a construir aqui sozinho, por conta própria”, lembra Wilson. “Primeiro fizemos embaixo, depois fechamos a laje em cima.” O uso da primeira pessoa não é meramente retórico: quem ergueu a laje foi Arnaldo, em uma versão mais radical do “artista igual pedreiro”. A parte de baixo virou o Espaço Brincar, uma brinquedoteca para crianças de 4 a 10 anos. A de cima divide-se entre a Biblioteca Exodus e o Espaço Nego Du (em homenagem ao irmão de Wilson e Tó, já morto), que recebe aulas de break, graffiti, capoeira e DJ. Três anos depois, a Festa 100% Favela teve seu auge, com a presença de Z´África Brasil, Rosana Bronx, GOG, TR3F (grupo de Ferréz) e outros nove grupos. O DVD gravado na ocasião é um documento único, com cenas raras de conversas gravadas entre a elite artística do Capão. Foi um sucesso, inclusive no Youtube. “Já perdemos a conta do quanto vendeu, mas foram mais de 10 mil. Sem contar os piratas”, avalia Tó. Além das festas, o Negredo promove bingos, feijoadas, bazares e toca a loja Cúpula Negredo.


"O lugar é pequeno, e fazemos questão de mantê-lo dentro da favela. Vivem falando pra gente mudar pra um prédio fora, como outras ONGs. Mas do que adianta ter um lugar longe, onde o povo precisa ir de ônibus? Melhor mudar pouco a pouco do que ter um prédio bonito, mas com oficinas vazias"



No ano passado, o Periferia Ativa conseguiu se expandir ainda mais. Com a compra de um imóvel anexo, nasceu o Periferia Digital. Após uma parceria com a Nike, eles compraram computadores novos e criaram uma sala de aula onde os alunos aprendem a usar programas de edição de imagem, ferramentas de blog, internet e outros. Em uma sala contígua, espremida entre as paredes estreitas da favela, há ainda um estúdio de gravação bem equipado. “Quem tá contando a nossa história somos nós mesmos”, define Alê, que cuida do Periferia Digital. “A ideia não é virar uma CUFA. O lugar é pequeno, e fazemos questão de mantê-lo dentro da favela. Vivem falando pra gente mudar pra um prédio fora, como outras ONGs. Mas do que adianta ter um lugar longe, onde o povo precisa ir de ônibus? Melhor mudar pouco a pouco do que ter um prédio bonito, mas com oficinas vazias.” Wilson complementa: “As crianças são acostumadas a acharem muito ruim o lugar onde moram. Com a sede aqui, veem de perto que dá pra fazer coisas legais”.

Atualmente, o Periferia Ativa tem 200 vagas para crianças e adolescentes, das quais 160 estão preenchidas e ativas. Para participar, os interessados precisam estar na escola, ter a carteira de vacinas em dia e apresentar uma identidade. “Se a criança não tá estudando, vamos até a casa ver por que e tentamos colocar na escola”, diz Tó. Claro, nem sempre é fácil. “Tem moleque que dá trabalho, tem moleque do tráfico, tem preconceito contra homossexual.” “Não tem como tirar [do tráfico] na marra”, complementa Alê. “Tem que dar opção, fazer o que o Estado deveria fazer. Se ele vai ser do tráfico, da capoeira ou do rap, a escolha é dele. Nós quatro viemos nessa direção por Deus, mesmo. Mas eles têm alguém aqui dentro pra mostrar outros caminhos.” Ainda assim, várias crianças mudaram de vida. “Alguns saíram do tráfico e dão aula aqui. Outros arrumaram empregos na cidade”, diz Tó. “Mudou tudo, hoje você pode andar pelos becos tranquilamente”, analisa Wilson. “Antes era bem perigoso entrar aqui onde você está.” O Capão, e em especial o conjunto de favelas onde fica a Godoy, é um dos lugares onde fica mais evidente o apartheid velado que impera em SP. Ali, sem alarde e com o amparo de poucos além deles mesmos, o Periferia Ativa está conseguindo virar um jogo que para muitos já nasceu perdido.

Saiba mais:
www.negredo.com.br
gruponegredo.blogspot.com
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